domingo, 10 de julho de 2011

Patologia

Como não houvesse pernas para inaugurar as trilhas

Ou solidão que fizesse o peito fumegar gélido, branco

Como se já esbravejasse o veredicto do fim trágico da paixão

Ou do ódio.

A estação que carregava nos olhos descoloria-se

Fazendo Insípida a medida dos dias

E frívola aos poros que nem ao menos ensaiavam suor.

Em contornos vívidos restava apenas o que adorna a morte

A moléstia ressentida do que cessou

- Passado vivaz.

Tão logo, menina, aprenda o que já lecionou o mormaço do tempo aos velhos:

Tem de haver esquecimento onde a paz faça sua cama.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Economia

Do outro lado do muro o poeta se sentia dentro,

no centro:

De onde disseminava implacáveis partículas sólidas de vantagem.

Afinal - pensava ele junto aos pombos, aqueles seus amigos das manhãs

Sou poeta e pela força do meu verso, de tanto maldizer, bendito me tornei.

Engano!

À míngua de supor haver aplausos escondidos atrás das cortinas que nunca se abrem

Ele comprazia-se em fazer dos dias meras linhas prostitutas que se davam a qualquer amor.

Mas vieram as noites frias como algozes dos tempos idos, cafetinas implacáveis

Agiotarem o trovador!

Que sem ter como dar conta pagou-lhes com pomposa nudez:

Despiu-se de sua poesia e entregou-se aos afetos da fome.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Lucidez

A carne estremece pingando a expressão salgada de todo afeto
E a contorção dos ossos range aos ouvidos o não-quer , sim, querer!
O gosto de quase morte escapa ao fôlego, oscilante, inconseqüente.
Os jargões atropelam a eloqüência, vitoriosos, triunfantes.
D’onde se inspira o gosto repentino pela morte, o desejo da entrega inalterável.
E a busca por um nome tantas vezes falha, já que isto não é amor:
Não! O amor é racional.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mister ou Peixe

A Osmar Soares

Se te amo, meu amigo, não é por querer

E não se assuste quando te digo – nem sempre ao pé do ouvido

Deste abrigo que me obriga a tanto amar.


É que meus olhos estão em dívida com as ondas

E meus pés correm sozinhos sobre as pedras da Lavradio

As mãos se contorcem em anotar rimas repetidas

E quando atento ao velho samba, ao novo samba, quiçá

Você está lá, aqui, em todo o lugar.


Não cabe recusa no meu peito

Que do teu lado é só Guanabara

E isto com ares de encargo, de suave fardo

É a tua ginga, é todo o mar navegado.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Verbete

E quando digo que é amor

não há como duvidar, meu bem:

Não sei mentir sobre o amor

Ou tomar seu santo nome em vão

Nem pelos que vão

(Por estes, menos ainda).


Podem crer todos os ouvintes

Todos os passantes, todos os pedintes.

E destes também clamo o perdão

Se com tanto insistir pareço um acusado

Bandido acuado, fazendo juras de inocência.


Por certo não sou inocente

De tanto dizer chinfrim, de tanta palavra vazia

Pois que o verbo só existe pela ação

Que dispensa toda sorte de poesia.


Por sorte, meu amor, tu já tens de cor este palavrório

Sem que sequer um pingo de letra

seja necessário ouvir.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Mobília e Espetáculo

Pedaços de pau lixados e betumados

flutuam como ideias

num sem fim de memórias:

Os pobrezinhos nunca chegarão a ser cadeiras ou armários!


Nós, ainda mais pobres: miseráveis!

Circulamos tontos, trocando pernas e palavras

nus do que se pode tocar e agasalhados do que se diz.

--------------------------------Asfixia.


E encerrados sob o jogo de luzes

do grande palco em que tudo se tornou

quando questionados sobre cadeiras, armários, flores e versos

diremos com triste garbo:

De boatos é o nosso conhecer.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Fel

A língua porfia entre dentes

Contendendo incauta com suas grades brancas

E com os ouvidos desatentos

- Mordam-me ferozmente os que me contornam,

Adormeçam-me os que me carregam

Esqueçam-me os que me devoram e de mim ganham prazer!

Mas – ouçam! - ingratos ordinários (e também ouçam os desavisados)

Rindo-me em tempo de morte, alerto-vos, caros:

- A vida mora na palavra.