terça-feira, 6 de setembro de 2011

Desastre Metafísico

A Wigvan

Questiona-se o trajeto percorrido até o último lamento

E entre cochichos ouvem-se os gemidos de porquês.

Positivistas existimos, nós, os vivos

- pois que livres são eles, que já conhecem o desfecho.

E a vida outra vez oferece o jantar aos que restam presentes

Na antessala lê-se o aviso:

A morte esquece todos os motivos na hora em que se executa.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Folclore

Traiçoeiras são as pegadas do instinto -

Apontam com certeza religiosa direções que desconhecem.


E nessas andanças perde-se o caminho:

Pro tempo, o velho banqueiro que saqueia a economia dos dias;

Pra memória, a cafetina sórdida que elimina tudo que não lhe convém;

Pros olhos, que se cansam de perambularem circulares;

Pro amor, que retorna.


Ah, mas que perverso esse instinto!

Escraviza nossos pés e retorce-os:

Como Curupira nos deixa, o maléfico,

Inutilmente vigiando a selva dos desejos

Reféns de qualquer distração,

Entregues a nós mesmos.

domingo, 31 de julho de 2011

A mulher ou Causa

Maligna é a imobilidade de quando me faltas.


Os castelos de marfim de um porvir iluminado

Que talho noite a noite na ante-sala de sonhos juvenis

Fincam estacas rígidas em memórias tuas

Tão atômicas, como fossem eternamente desintegráveis.


Mas quão pestilentos são os assombros da terceira hora!

Furtivamente manifestam-se em severa ilusão

De que te levarão, estes sempiternos minutos pavorosos.


Todavia, da profundeza do maior de todos os tormentos

Bendito! Bendito seja o dia em que te direi Adeus

Pois que a Deus voltará o que de mais semelhante a Ele eu pude ver.

domingo, 10 de julho de 2011

Patologia

Como não houvesse pernas para inaugurar as trilhas

Ou solidão que fizesse o peito fumegar gélido, branco

Como se já esbravejasse o veredicto do fim trágico da paixão

Ou do ódio.

A estação que carregava nos olhos descoloria-se

Fazendo Insípida a medida dos dias

E frívola aos poros que nem ao menos ensaiavam suor.

Em contornos vívidos restava apenas o que adorna a morte

A moléstia ressentida do que cessou

- Passado vivaz.

Tão logo, menina, aprenda o que já lecionou o mormaço do tempo aos velhos:

Tem de haver esquecimento onde a paz faça sua cama.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Economia

Do outro lado do muro o poeta se sentia dentro,

no centro:

De onde disseminava implacáveis partículas sólidas de vantagem.

Afinal - pensava ele junto aos pombos, aqueles seus amigos das manhãs

Sou poeta e pela força do meu verso, de tanto maldizer, bendito me tornei.

Engano!

À míngua de supor haver aplausos escondidos atrás das cortinas que nunca se abrem

Ele comprazia-se em fazer dos dias meras linhas prostitutas que se davam a qualquer amor.

Mas vieram as noites frias como algozes dos tempos idos, cafetinas implacáveis

Agiotarem o trovador!

Que sem ter como dar conta pagou-lhes com pomposa nudez:

Despiu-se de sua poesia e entregou-se aos afetos da fome.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Lucidez

A carne estremece pingando a expressão salgada de todo afeto
E a contorção dos ossos range aos ouvidos o não-quer , sim, querer!
O gosto de quase morte escapa ao fôlego, oscilante, inconseqüente.
Os jargões atropelam a eloqüência, vitoriosos, triunfantes.
D’onde se inspira o gosto repentino pela morte, o desejo da entrega inalterável.
E a busca por um nome tantas vezes falha, já que isto não é amor:
Não! O amor é racional.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mister ou Peixe

A Osmar Soares

Se te amo, meu amigo, não é por querer

E não se assuste quando te digo – nem sempre ao pé do ouvido

Deste abrigo que me obriga a tanto amar.


É que meus olhos estão em dívida com as ondas

E meus pés correm sozinhos sobre as pedras da Lavradio

As mãos se contorcem em anotar rimas repetidas

E quando atento ao velho samba, ao novo samba, quiçá

Você está lá, aqui, em todo o lugar.


Não cabe recusa no meu peito

Que do teu lado é só Guanabara

E isto com ares de encargo, de suave fardo

É a tua ginga, é todo o mar navegado.